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Karina Figueiró : Histórias em madeira.

by Fabiana Barros – Comunique / 22 de novembro de 2012

Como você começou a perceber o universo da arte na sua vida?

Desde pequena gostava de brincar com coisas antigas e usadas. Apreciava ficar sozinha curtindo o silêncio, percebendo o suave movimento da natureza, das plantas, árvores, as mudanças de luz, das cores, do vento, dos pequenos animais. Adorava espiar as amigas da minha avó, com aquelas roupas estampadas, psicodélicas, coloridas, de riso solto. Muitas dessas boas lembranças vem mesmo da minha avó! Enquanto ela costurava, eu ficava desembaraçando os carretéis, fazíamos chocolates, pintávamos, ainda sinto o cheiro dos livros de histórias que ela me contava.  Via beleza em tudo isso. 

Assumo certa dose de melancolia. Respeito essa capacidade de conectar-se com o que somos sem julgar. Chamo isso de: a soltura de deixar ir e vir. Por mais louca que seja a energia que passa por você, isso abre o inconsciente. O que você experimenta no sonho, também experimenta na arte. É a maravilha de desvendar-se. A suavidade, a intensidade, a tristeza, a harmonia, a simplicidade, a angustia, a integridade, o mistério, a clareza, a dor, tudo coexiste. Cada momento é acolhido e esvaziado, como a respiração.  Essa sensibilidade viva é digna do surgimento de uma peça de arte. Esse mergulho é inevitável.

Como foi construída essa ponte entre a sua forma de viver e o trabalho com a madeira?

O deslumbramento pela vida sempre me apaixonou, as pequenas coisas do dia a dia vão se tornando especiais quando olhadas com afeto e surpresa. Foi assim que tudo começou.

Aos poucos fui transformando o que me acontecia no dia a dia através das mãos, experimentando materiais diferentes, como uma brincadeira de trazer esse mundo imaginário e profundo à superfície. Fui tecendo esse vínculo com as mãos, me apresentando uma nova realidade, hoje compartilhada.

Ganhei alguns objetos de madeira antigos e comecei a mexer com as sobras desse material. Percebi uma coisa muito importante e simples: Eu gostei de fazer aquilo! Por gostar comecei a me divertir criando universos com a madeira. Todo o pedaço de madeira que vejo por ai recolho e levo para casa. Sempre da para transformar.

Dessa maneira as peças vão ganhando vida, personagens, seres da natureza, histórias, flores, folhas, elementos.  Através da marchetaria tento trazer essa dimensão lúdica e divertida à tona. A cada dia descubro novas possibilidades, para mim o trabalho tem esse frescor. Não passa muito pelo pensamento e sim pela beleza e pelo esvaziamento daquele exato instante. Como dizia Lao-Tsé: "É o vazio do vaso que lhe oferece utilidade".

Como você desenvolveu a sua técnica?

Há alguns anos me formei na faculdade de artes plásticas pela  Belas Artes  em Salvador – Bahia e depois como restauradora e designer no Palazzo Spinelli em Firenze – Itália.

Aprendi marchetaria restaurando muitos e muitos móveis antigos, entalhava, dourava, pintava. Já nessa época às vezes me escondia e ficava inventando arte com a madeira. Vivia no subsolo dos museus e igrejas. Aos poucos fui sentindo vontade de expandir a marchetaria para fora do restauro. Foi exatamente quando meu primeiro filho Teo nasceu. Então montei meu primeiro atelier. Passava horas e horas recortando desenhos nas laminas de madeira e a partir daí nasceu o processo da marchetaria ilustrada.

Como você experimenta o seu trabalho hoje?

 Com o nascimento dos meus dois filhos esse processo foi intensificado. Virei do avesso. Senti uma explosão do universo feminino, acredito que mulher tenha essa ligação com o selvagem, com a abundancia, com a terra. Acho que tive a oportunidade de aterrar dentro de mim e ressurgi mais leve, com mais força e serenidade, quase invisível. Foi uma generosidade da vida.

Os meninos me trouxeram um tipo de criatividade muito mais pura e espontânea. Como se eles não tivesse filtro, vai saindo naturalmente. De tanto contar histórias para eles, de tanto desenhar livremente com eles, de tanto trocar ternura com eles, acho que os pequenos foram me ensinando a ser eu. Percebi que eu mesma sou minha “casa”. Foi um renascimento, tudo ficou absolutamente intenso e bem mais simples.

Eles me incentivaram a recomeçar a desenhar. Estamos o tempo todo inventando juntos e como ninguém se leva muito a sério, rimos muito de nós mesmo.

Nos mudamos de São Paulo para uma cidade menor e montamos uma casa-atelier chamada: K+2!

O trabalho para mim hoje pertence a essa nova realidade. Sigo criando o que surge no meu coração. Dedico muito carinho a cada peça, como se fosse à expressão da minha nova vida em madeira, é impossível separar e por isso o processo em si torna-se apaixonante.